A especialidade

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Para um paciente na Emergência, um médico especialista em Medicina de Emergência

por Dr. Luiz Alexandre Alegretti Borges

    O crescimento e o avanço da medicina mundial foi tamanho nas últimas décadas, como nunca ocorrera em toda sua história. Ficou claro e definitivo para a comunidade científica internacional, que seria impossível para um só médico deter todo o conhecimento da medicina sobre todos os males. Quando pensamos no segmento Emergência, a área da medicina que envolve as situações de urgência e emergência, temos um agravante que é a vida do paciente que está em jogo, onde o tempo é ouro, o paciente não escolhe o médico que vai lhe atender, o evento doença é súbito e agudo e a qualificação do médico é decisiva e fundamental. Assim para melhor atender a população, as Sociedades médicas se organizaram por patologias envolvendo os mesmos  órgãos reunindo médicos estudiosos, identificados, com estas doenças, surgindo assim as Especialidades Médicas, ou seja, para um paciente com doença do coração, um cardiologista e sucessivamente. Adotou-se mundialmente como o melhor modelo para formação de um especialista o programa  de Residência Médica, onde o ponto alto é o treinamento em serviço supervisionado, a dedicação diária e o tempo prolongado na formação.

    No Brasil para se ter Residência Médica é preciso que haja antes o reconhecimento da Especialidade. O reconhecimento da Medicina de Emergência como Especialidade há longos anos esbarra em questões políticas e vaidades pessoais, deixando a população relegada a um segundo plano. A Comissão Mista de Especialidades constituída pela  AMB, CFM e pela CNRM,  é o órgão responsável por tal reconhecimento. Hoje a Urgência e Emergência é uma Área de Atuação da Clínica Médica. Esta decisão deixou de fora a possibilidade do pediatra fazer Emergência, mesmo que em um ano de atuação. Observamos que ao longo de todos estes anos, a Clínica Médica nunca executou o determinado, ou seja, nunca formou ninguém.  E mesmo que o fizesse ainda assim seria insuficiente, pois os modelos americano e europeu mostram que para uma adequada e eficiente formação de um médico na área de Emergência é necessário 03 a 04 anos de treinamento.

    O HPS em 1996, vendo o caos nos Serviços de Emergências tanto na assistência quanto na gestão, vendo a falta de sensibilidade e visão das nossas Instituições Médicas, e  olhando internamente o seu “now how” na área dos atendimentos de emergências,  tomou uma atitude corajosa, de vanguarda , afrente de seu tempo, a decisão de criar uma Residência Médica em Medicina de Emergência. Assim foi feito e para constatação de todos, surgia alí um novo médico, o “Especialista em Emergência”, com conhecimento teórico, com habilidades práticas   capaz de atender a toda e qualquer situação de urgência e emergência que dele o paciente necessitasse. As vagas foram ampliando-se ao longo do tempo até chegarmos aos dias de hoje com 06 vagas para R1 e com 03 anos de formação, baseado no modelo norte-americano. Estes jovens médicos, bem formados, vocacionados para este segmento específico, a Emergência, foram aos poucos sendo absorvidos pelo mercado de trabalho com tanto sucesso que hoje nenhum Serviço de qualidade, nenhum grande hospital abre mão de tê-los em seus quadros, e não só como médico no Serviço de Emergência, mas como Chefe, Coordenador destes Serviços.

    Como bem demonstra a literatura mundial, o médico emergencista com formação e titulação reduz mortalidade, reduz custos, reduz a superlotação com tomadas de decisão seguras nos critérios de internação e alta, bem como reduz os processos éticos profissionais decorrentes das atuações nas emergências.

    Se 20 ou 30 anos atrás alguém propusesse que todo paciente (pediátrico ou adulto) sofrendo de uma enfermidade aguda e potencialmente letal que procurasse um Serviço de Emergência devesse ser atendido por um Médico Especialista em Emergência, esse pressuposto seria considerado como uma demasia. Com os atuais avanços e complexidade da Medicina de Emergência, incorporação de métodos diagnósticos (como imagens), tratamentos mais agressivos, mais precoces e curativos (como Infartos e AVCs) se impõe a presença deste novo especialista  e definitivamente não podemos mais negar esse direito aos pacientes de nosso país. Portanto é uma questão de tempo para que essa premissa se torne realidade, assim como aconteceu com as outras especialidades.  Fica evidente que aquele modelo antigo, desenvolvido em outro tempo, de “médico que faz plantões na Emergência durante um período transitório de sua vida” , além de ultrapassado, é ineficaz. Hoje, os Serviços de Emergência (pediátricos e de adulto) no Brasil, necessitam de médicos com formação específica, com vocação, com experiência, com treinamento e habilidades nos procedimentos e que   possam propiciar o desenvolvimento e a geração de conhecimentos, incluindo aqui, necessariamente, a pesquisa. Ou seja, o modelo exige que troquemos o “médico transitoriamente atuando na Sala de Emergência” por médico Especialista em Emergência. O futuro da Emergência depende deste indivíduo que fará da Emergência o seu local de trabalho, e alí irá desenvolver toda sua carreira profissional.

    Obviamente que o reconhecimento imediato da Especialidade Medicina de Emergência e a expansão das Residências em todo o país levaria ainda assim, algumas décadas para termos especialistas em número suficientes para atender a demanda das nossas Emergências. Por outro lado valorizamos os médicos que hoje atuam nas Emergências, pois prestam uma grande contribuição ao sistema e se melhor não fazem é porque não há uma Sociedade de Especialidade que os dirijam e os capacitem. A Abramede, Associação Brasileira de Medicina de Emergência tem como objetivo associar todos estes médicos e desenvolver cursos de capacitação e qualificação continuada dando a eles a possibilidade da obtenção do seu Título de Especialista.

    Mundialmente a Medicina de Emergência é uma das maiores especialidades, sendo hoje mais de 60 países que a reconhecem. Somente nos USA há mais de 160 programas de Residências em Medicina de Emergência, formando mais de 1.000 médicos por ano.

    Todos os dias, em todos os horários, milhares e milhares de pacientes agudamente doentes procuram as Emergências na busca de soluções. As mortes evitáveis são inúmeras e sem medo de errar podemos dizer que o problema nas Emergências é tão abrangente atingindo a toda  a população brasileira, que trata-se de uma questão de saúde pública e que portanto como tal deveria ser tratado por todas as autoridades de saúde deste país. Estamos atrasados no tempo e mudanças se impõe. A luta continua, não deixaremos que a insensatez prevaleça. Certa vez em um discurso o  presidente americano John kennedy disse: “Os problemas do mundo não podem ser resolvidos por céticos ou por cínicos, cujos horizontes se limitam as realidades evidentes. Temos a necessidade de homens capazes de imaginar o que nunca existiu”. As entidades médicas precisam responder aos médicos e a população brasileira porque a Medicina de Emergência ainda não é uma Especialidade Médica.