Opinião

A Emergência sob diversos olhares

– Entrevista  com Enfermeira de Emergência Ursula Jackel

Meu nome Ursula Renate Jackel, formada pela UNISINOS com pós-graduação em Administração dos Serviços de Enfermagem; uma pessoa realizada profissionalmente e apaixonada por emergência. Exerço a função de enfermeira há 25 anos no HPS, completados recentemente  em setembro de 2014.

Prestei concurso para a PMPA e, em nenhum momento, realmente pensei que viria trabalhar no HPS. Acredito que o destino mudou minha trajetória profissional que se iniciava em um hospital geral. E assim entrei para o ¨mundo da emergência¨, onde trabalho até hoje.

A emergência tem peculiaridades diferentes em relação à outras áreas do hospital. Na emergência a equipe de enfermagem deve ser treinada e capacitada para atender situações emergenciais com bastante habilidade e agilidade. A enfermeira  precisa ter uma liderança, em que ele irá trabalhar  conjuntamente com a equipe de enfermagem e, ao mesmo tempo, fornecer instrumentos para que todos desempenham suas funções adequadamente.

A sala de emergência sempre deve estar preparada, em relação a materiais e equipamentos, para o atendimento de pacientes em situação de risco. Temos que prever  com antecedência, a fim de prestar uma assistência de qualidade ao paciente. Isso também inclui treinamentos e qualificações periódicas. Outro fator importante é a detecção de sinais e sintomas de piora dos pacientes, uma vez que, a enfermagem se dedica ao cuidado do paciente nas 24hs.

Ao longo destes 25 anos muitas coisas mudaram. O hospital passou por várias reformas, a demanda dos pacientes aumentou e, por conseguinte, as equipes também tiveram que ser aumentadas e a assistência mais qualificada. Os materiais e equipamentos são melhores e mais modernos. A estruturação da emergência também foi modificada, principalmente, pela instituição da classificação de risco dos pacientes. Também hoje, nós temos que lidar com a permanência de pacientes internados junto com a demanda de pacientes que procuram diariamente o serviço de emergência.

Acredito ser muito importante o ¨trabalhar junto com o emergencista¨ em um ambiente onde o stress  é intenso. Na minha opinião o emergencista deve ter disponibilidade, tranqüilidade, iniciativa e bastante clareza ao transmitir informações. Ele deve fazer parte da equipe toda que presta assistência ao paciente na emergência.

O HPS é, essencialmente, um hospital de emergência, principalmente de trauma. Considero que em relação a equipamentos e área física, ele estaria preparado para atendimento de politraumatizados, mas, ressalto, que ainda existe uma escassez de recursos humanos.

Concluindo, diria aos novos residentes da emergência, que, apesar de dificuldades e deficiências comuns a todos os Serviços de Saúde, é fascinante o trabalho na emergência. É o trabalho em equipe, envolvimentos com outras realidades, encontrar a melhor forma de contornar ou resolver intercorrências. É proporcionar alegrias em meio a tristezas, mostrando que, mesmo após um acontecimento causador de limitações e modificações nas rotinas de uma vida inteira, ainda é possível adaptar-se e viver.

setembro de 2014

 

Porque, simplesmente, nós somos apenas diferentes…

Adaptado de Leap, Edwin MD

Anos e anos em medicina de emergência me deram um olhar muito esclarecedor para as várias especialidades que compõem a carreira da medicina. Constantemente me surpreendo com os outros profissionais que conheço. Como os pediatras podem gerir o mais ínfimo dos seres humanos, um pouco maior do que a palma da mão. Sou fascinado pela forma como um traumatologista pode olhar para uma fratura, e reconstruí-lo em sua mente, uma espécie de organização espacial totalmente estranha aos meus hemisférios cerebrais.

Cirurgiões podem navegar nos compartimentos complexos do corpo humano, e deixá-lo suave como a seda após o trauma ou câncer. Os neurologistas estão em casa com os caminhos do labirinto complexo do cérebro humano.

Internistas e médicos de família têm a paciência de Jó, e os radiologistas podem detectar sutilezas em tons de cinza que deixaria uma coruja com inveja. Há tantos especialistas surpreendentes, de obstetras intrépidos a oftalmologistas que se utilizam da física óptica para superar os olhos do envelhecimento.

Às vezes, ao olhar o talento em volta de mim, e me pergunto se faço parte deste mundo! Não poderia fazer o que essas pessoas fazem. São impressionantes; Eu não tenho os seus talentos. Eu não sou como eles! E, no entanto, quando encontro algum colega e que ao saber que sou emergencista diz: “Eu sei como é duro. Já fiz muito plantão na emergência! ”

O que exatamente isso quer dizer: “Eu já fiz muito plantão de emergência… Talvez eu seja um pouco sensível, mas sempre me parece com um ar de arrogância como quem diz: “Sim, qualquer um pode fazer isso; não foi bastante difícil, então eu decidi me tornar um neurocirurgião! ”

“Eu faço alguns plantões na emergência”. Será que por algum motivo ele não pode fazer só emergência. Ou que, enquanto entre outros trabalhos, ele faz um plantão na emergência ou uma clínica de pronto atendimento, onde ele poderia juntar dinheiro até realmente se tornar um médico especialista de verdade.

Imagine o contrário que trágico-cômico: – “Sim, eu fiz uma cirurgia cardíaca. Você sabe, quando eu era residente, e precisava do dinheiro extra! “” Legal, oncologia! Eu fiz alguns plantões quando eu estava na residência de medicina de emergência! “” Cateterismo? Claro, eu fiz alguns na faculdade. Foi bem legal, mas não era para mim. Parto normal comigo não, prefiro fazer cesária….”

Então, o que faz com que todos se sintam que a medicina de emergência é a coisa que alguém pode fazer? Posso dizer-lhe, depois de quase 20 anos no campo, eu não tenho ideia o que levaria alguém a pensar o nosso trabalho é uma espécie de práticas básicas, que qualquer médico teria condições de fazer.

O que nos torna diferentes? Se é apenas a capacidade de fazer plantões, dia após dia, semana após semana, ano após ano, isso é o suficiente para nos separar da maioria. Nós podemos fazer isso. Nós somos os únicos que sempre lidamos com o caos. Quando um plantão está cheio e uma criança febril deve ser reavaliada, essa criança é nossa. Quando um cirurgião está muito ocupado para avaliar uma barriga, estaremos lá. É na emergência que as pessoas levam seus exames do coração quando não conseguem esperar a consulta com o cardiologista. E quando tudo isso acontece simultaneamente, com mais um monte de poli traumatizados, ainda temos que lidar com o fato que os outros especialistas estão muito ocupados para ajudar mesmo tendo “vasta experiência” em plantões na emergência.

Mas é mais do que isso. Assim como cada especialista tem capacidades únicas que são suas marcas registradas, assim somos nós. Pensamos rapidamente, e tomamos notavelmente boas decisões com uma escassez terrível de dados. Nossos pacientes são em sua maioria pessoas que não podem se comunicar e que nunca tem apenas um problema, nunca é só uma infecção… Dificilmente ficamos entre uma única hipótese diagnóstica, dor no peito sempre pode ser TEP, infarto ou trauma.

Somos senhores e senhoras de negociação, criatividade e disposição. Nossos conjuntos de habilidades diárias envolvem controlar o bêbado para que fique quieto, a diversas histerias, e convencer chefe do plantão a ouvir nossas ideias. Temos de convencer o plantonista da uti da gravidade do paciente, conversar com a família que acabou de perder um membro e explicar para o irmão/advogado do paciente que estamos realmente fazendo um trabalho excelente. Não é que nós somos escritores de ficção ou enganadores; estamos simplesmente tentando tecer as histórias do dia em um grande final feliz. E isso requer um pouco de comunicação criativa.

Isso é apenas uma pincelada de nosso dia a dia. Temos que entubar no meio do vômito, obter acesso EV no violenta e delirante, lutar e conter o suicida, imobilizar a fratura, ler a maioria dos nossos próprios raios-x (mesmo quando alguém está sendo pago para fazê-lo), e fechar ferida no couro cabeludo do viciado em crack. Nossa lista de habilidades é longa. Temos que fazer tudo isso enquanto os outros olham sobre os nossos ombros, perguntando por que a demora, questionando a eficiência, por que não documentar mais, e por que não passar mais tempo na beira do leito. Sempre sendo cobrados que o paciente está sentido dor, que está vomitando, de por que ter chamado a consultoria e por que de não ter chamado. E tudo isso enquanto todo o inferno acontece livre em torno de nós.

Apesar de ser considerado erroneamente pratica elementar da medicina, nossos talentos são consideráveis. E a maioria deles aprendemos com a experiência de anos e anos. Não nos tornamos especialistas por acaso.

Eu tenho que dizer, a maioria das pessoas que me falam “eu costumava fazer alguns plantões na emergência” realmente não fazia. Pelo menos, não da forma como o fazemos. Não com a mesma dedicação, compromisso, e habilidade. Se o tivessem feito, teriam nos abraçado, e pedido desculpas por não trazer o almoço. E mais importante, eles teriam tido vergonha de fazer a comparação. Não porque eles sejam ruins. Mas porque é simplesmente diferente.